O Floripa Mil Grau surgiu em 2012, em um contexto que ajudou a moldar exatamente o tipo de linguagem que a página viria a dominar: crise urbana, caos cotidiano e a necessidade coletiva de transformar tensão em humor. Sua origem está diretamente ligada a uma greve de ônibus em Florianópolis, quando a cidade ficou travada e a rotina da população se transformou em uma sequência de improvisos, reclamações e situações absurdas no transporte público.
Nesse cenário, as primeiras postagens nasceram de registros cômicos feitos a partir do cotidiano do transporte. O Floripa Mil Grau não começou como um plano formal de mídia. Surgiu como comportamento, como uma reação espontânea ao que a cidade estava vivendo. As imagens e montagens circulavam como memes antes mesmo de existir um local definido para centralizar e organizar esse tipo de conteúdo. Primeiro veio o conteúdo, depois surgiu a necessidade de criar um ponto de encontro.
A iniciativa começou com um criador muito jovem. A criação do projeto foi impulsionada por um adolescente chamado Vitor Roque, que tinha aproximadamente 14 anos na época. A motivação era tirar onda da situação específica da greve de ônibus, que afetava diretamente sua rotina. As montagens e memes começaram a funcionar dentro do círculo social e rapidamente ganharam tração.
O passo seguinte foi perceber que não existia, naquele momento, um canal regional que reunisse esse tipo de humor local com a força de uma página dedicada. O conteúdo já existia e circulava, mas faltava um endereço. A criação da página no Facebook surgiu como consequência natural: um espaço central para que a cidade pudesse se enxergar, comentar e compartilhar o próprio cotidiano.
O timing foi decisivo. Em 2012, o Facebook funcionava como uma verdadeira praça pública digital para a cidade. Era uma fase em que páginas regionais tinham enorme poder de alcance e compartilhamento. O formato do conteúdo era totalmente compatível com o que a plataforma favorecia: imagens fortes, memes curtos, identificação imediata e rápida propagação no feed. O algoritmo privilegiava conteúdos de fácil compartilhamento e leitura instantânea, e o Floripa Mil Grau surgiu exatamente nesse encaixe.
A página ganhou força porque o motor principal nunca foi apenas o humor, mas o reconhecimento. O Floripa Mil Grau não inventava Florianópolis; mostrava Florianópolis. Isso gerou pertencimento e um sentimento coletivo de que não se tratava de uma página falando sobre a cidade, mas da própria cidade falando de si mesma.
Em novembro de 2012, ainda no primeiro ano do projeto, ocorreu um marco importante na evolução do papel da página: os atentados a ônibus em Florianópolis e em outras regiões de Santa Catarina. Esse período levou o Floripa Mil Grau a montar um plantão informativo que durou semanas, com o objetivo de informar o público sobre cada ataque. A partir desse momento, a página deixou de ser apenas humor e passou a exercer também uma função de utilidade em tempo real.
O crescimento rápido trouxe novas pessoas para a administração do perfil. Conforme a base aumentou e mais pessoas quiseram participar, surgiram novos administradores. Nesse momento, nomes como Joílson e Motora passaram a integrar o projeto, ajudando a moldar a fase seguinte do Floripa Mil Grau.
A partir de 2013, iniciou-se um novo momento decisivo: as primeiras relações comerciais. Um dos primeiros movimentos foi o uso recorrente de memes envolvendo a Pureza Refrigerantes, o que acabou se transformando na primeira parceria comercial da página, estabelecida em 2013 e descrita como duradoura. Nesse período, o Floripa Mil Grau começou a aprender e a construir, do zero, uma forma de transformar humor regional em entrega comercial, sendo tratado como pioneiro local em marketing de influência baseado em memes, em uma época em que essa prática ainda não era comum.
Ao identificar o potencial de negócio, Motora passou a integrar o projeto com uma visão mais estratégica, percebendo que era possível divulgar marcas por meio de memes, sem depender da exposição direta de pessoas. O primeiro contrato com a Pureza foi anual, iniciado com um valor baixo para os padrões atuais, mas suficiente para sinalizar a transição de um hobby para uma estrutura comercial.
Com o passar do tempo, o Floripa Mil Grau deixou de ser apenas um projeto de internet e passou a exigir organização empresarial. Para continuar existindo e evoluindo, tornou-se necessário que o projeto se tornasse prioridade na vida de quem o produzia. Isso levou à estruturação de cargos, funções, processos e de uma operação financeira mínima capaz de sustentar parcerias mais longas.
Entre 2015 e 2017, o projeto passou por uma sequência de marcos numéricos e de expansão. Em 2015, o Floripa Mil Grau atingiu 200 mil curtidas no Facebook e lançou sua própria linha de produtos. No mesmo ano, foi criada uma empresa para administrar comercialmente a página. Em 2016, o perfil alcançou 300 mil curtidas. Na primeira metade de 2017, chegou a 400 mil e, em setembro de 2017, atingiu 450 mil curtidas.
Ainda em setembro de 2017, ocorreu um marco físico importante: o lançamento de uma edição impressa do Floripa Mil Grau, distribuída nas ruas de Florianópolis. A primeira tiragem foi de mil exemplares, com crescimento posterior para cinco mil na segunda tiragem, evidenciando a capacidade do projeto de transformar audiência digital em ação fora da tela.
Paralelamente, a cidade migrou progressivamente para o Instagram, e o Floripa Mil Grau acompanhou essa mudança. Atualmente, o Instagram é a principal rede social onde o projeto concentra suas atividades.
No presente, o Floripa Mil Grau opera com 23 integrantes, trabalha com grandes anunciantes do Brasil e do mundo, atinge mais de 32 milhões de contas por mês e soma cerca de 340 milhões de visualizações. Apesar do crescimento e da consolidação como empresa, a essência que motivou o surgimento do projeto permanece a mesma: improviso, rua e o olhar direto para a cidade como ela é.

